SEGURANÇA PATRIMONIAL – ENTREVISTA

cameras_condominio

Foi-se o tempo em que os índices de violência eram irrisórios e a criminalidade ficava bem longe dos passeios soteropolitanos. De um tempo para cá, a violência não só cresceu como bateu na porta e invadiu condomínios e residenciais sem tomar conhecimento de guaritas e portarias (em vários casos são elas que facilitam).

Com isso, a salvaguarda do morador tem dependido cada vez mais de um efetivo pequeno de profissionais, que muitas vezes sem preparação adequada e sem recursos suficientes caem diante dos delitos. Segundo o consultor de segurança patrimonial Luiz Breneken, a situação é facilitada porque na maioria das habitações, a segurança não está preparada para a missão que tem.

Para ele, nove anos na Bahia já foram suficientes para observar situações críticas que favorecem a escalada de crimes, e um fato é gritante. “Basta você chegar de terno e gravata, com uma pasta e se apresentar com oficial de Justiça que você entra em qualquer condomínio”, disparou.

Na entrevista em que concedeu ao Bahia Notícias, Breneken falou também sobre crimes comuns em condomínios, discorreu sobre a importância dos recursos eletrônicos, deu orientação para condomínios populares, e comentou as polêmicas orientações da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia. Confira a entrevista na íntegra.

Bahia Notícias: Como anda a segurança nos condomínios de Salvador?

Luiz Breneken: Na verdade, essa questão que tem acontecido nos condomínios de Salvador é uma escalada que começa e vai em uma crescente. Há coisa de 15 anos, quando começou essa onda de assalto em que quadrilhas especializadas invadiam condomínios de alto luxo com cinco, seis ou dez elementos, qual era a prática? Rende o porteiro, toma o lugar do porteiro, e conforme o pessoal [moradores] vai descendo ou chegando, vai ficando preso na garagem enquanto eles invadem os apartamentos. Mas eram casos isolados, a ponto de se falar: “olha, a gente teve uma ocorrência por ano”, mas, de repente, vem esse boom de casos em condomínios.

BN: Os crimes estão ficando mais organizados, é isso?

LB: Veja só. O que é que a gente vai ver com o cara que atacava o condomínio e que foi preso. Geralmente é ele, o irmão e mais um elemento. Esse cara disse que veio do interior, fazia serviço de jardinagem e ficava rondando os condomínios. Isso a gente não pode considerar como um crime organizado. É quase um crime organizado. Por quê? É uma quadrilha agindo, é, mas não são como essas quadrilhas que atuam em São Paulo com 15, 20 elementos, que invadem todos os apartamentos e atacam com armamento pesado. Inclusive lá, já tem delegacia especializada, coisa que aqui a gente ainda não tem. O que eu posso dizer é o seguinte, eu acho que o cara daqui ataca mais por ser oportunista. Encontra uma oportunidade, uma facilidade, e ataca. E eu posso afirmar para você. Em mais de 90% dos condomínios daqui é muito fácil entrar. Basta você chegar de terno e gravata, com uma pasta e se apresentar como oficial de Justiça. Você entra em qualquer condomínio.

BN: Seja em condomínio de classe média ou média alta?

LB: Nos condomínios de alto padrão é mais difícil, porque os porteiros são mais qualificados, são mais treinados, e normalmente são empresas terceirizadas de segurança. Então, o nível é um pouco melhor. Não que isso não vá acontecer nesses lugares também.

BN: E no caso, qual a orientação para que o porteiro cumpra a função dele sem constranger o visitante?

LB: Simples. Chegou alguém na portaria e se apresentou como oficial de Justiça. Segura ele. OK, “o senhor vai entregar em que apartamento?” Comunica o morador sobre o visitante, e se ele, morador, autorizar, tudo bem. Ao menos que o oficial de Justiça tenha um mandado de segurança. Mas ele tem que mostrar o mandado. Porque se não, isso configura invasão de domicílio e abuso de poder. E se o cara insistir, comunica ao síndico, ou então, no último caso, à polícia. Aqui em salvador se faz muito isso. É por essas coisas que o porteiro tem que barrar mesmo, ser indigesto, sabe.

BN: Quais os problemas mais comuns em relação ao trabalho dos porteiros?

LB: Existe um problema que é o seguinte. O porteiro, em função do despreparado e, muitas vezes, do receio de perder o emprego, ele não barra. Às vezes, o cara chega ali e diz: “olha, eu sou um oficial de Justiça”. O porteiro vai e abre. E tem o problema do “doutorismo”. Então, bastou está bem-vestido que passa.

BN: Em vários momentos o porteiro abre o portão porque não quer criar atrito com os moradores, não é?

LB: Muitas vezes eu abordo o síndico e pergunto: “você sabe quem são os funcionários que trabalham para você? Ah, sei, seu José, seu João. Não, eu quero saber se você sabe o endereço atualizado, o RG e o CPF deles. Você checa os antecedentes deles com certa frequência? Sim ou não? Não.” Depois eu pergunto: “os prepostos e os demais empregados que trabalham no condomínio, você tem um cadastro dessas pessoas? Não.” Aí, a última pergunta: “você conhece todos os moradores do prédio em que você é síndico? Não.” Então, tem coisa errada aí, não é?

BN: A demanda de trabalho do porteiro chega a prejudicar o serviço que ele faz?

LB: Você acreditar que um porteiro lá embaixo, desarmado, vá fazer essa segurança toda, não existe. O porteiro recebe carta, separa carta, abre portão, fecha portão, fala com morador, atende telefone. Esse cara vai estar ligado no que está acontecendo em volta? Não vai.

BN: E os equipamentos de segurança como câmeras e sensores. Não ajudam?

LB: Aí tem outro erro comum que acontece em muitos lugares. Tem condomínio que instala uma porção de equipamentos. O cara bota cerca elétrica, alarme, câmera, etc. Aí ele bota o servidor da câmera, o que grava na portaria. Quando o vagabundo chega lá, basta ele desconectar, botar embaixo do braço, que ele vai embora e acabou.

BN: Na média, as portarias são adequadas para o trabalho de segurança?

LB: Olha, tem portaria que favorece a abordagem do bandido, que é aquela portaria que fica na rua, onde a janela está na rua, onde eu converso com o porteiro na rua. Então, basta o cara fazer uma grave ameaça que o porteiro abre. Mas tem outras questões. Para melhorar a segurança de um condomínio tem que envolver a arquitetura da guarita, a velocidade dos portões, a eclusa nos portões de entrada e saída das pessoas, envolve a qualificação dos funcionários. O funcionário bem qualificado e com recurso eletrônico, eu garanto para você, que pode haver o assalto, mas vai ser bem mais difícil.

BN: Em condomínios em que a condição financeira dos moradores não permite maiores investimentos na segurança, qual a orientação para tornar o ambiente mais seguro?

LB: Primeira coisa: conheça seus vizinhos. Uma vez que você conhece seus vizinhos, você vai identificar um estranho que é aquela pessoa em atitude suspeita. Outra coisa, se você tiver porteiro, qualifique. Existem escolas, existem cursos, existem consultores que fazem esse trabalho. Qualificar e reciclar. Porque o modus operandi do criminoso é o mesmo. Ou ele rende o porteiro ou, como a gente chama, vai no “cavalo doido”, que é quando um carro está passando, o portão está aberto e ele entra no vácuo. Ou ele entra no condomínio quando o portão está aberto. O bando entra, um toma o lugar do porteiro e aí a quadrilha entra nas dependências. Mas em bairros mais humildes, em condomínios populares, de várias portarias, uma coisa que funcionaria bem seria a utilização de um sistema de rádio. Se cada portaria tivesse um rádio fazendo uma comunicação integrada, reduziria bastante o índice de violência. Eu estou vendo um carro suspeito. “Olha, tem um cara que está rodando muito aqui. Esse cara é suspeito. Dá uma olhada aí”. E na dúvida, 190. A polícia está aí para isso. Tem que recorrer à ela.

BN: Os efetivos de segurança nos condomínios de Salvador são suficientes?

LB: Não são. Na maioria, é um porteiro trabalhando em jornada de 12 horas. O cara trabalha 12h por 36h, vai um dia e folga o outro. E é como eu te falei, o cara fica olhando carta, atendendo interfone, telefone, morador. É muito difícil.

BN: A gente, e o senhor, teve conhecimento das orientações da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia em caso de assalto. Na primeira dica, a secretaria informava que a pessoa devia levar dinheiro para “satisfazer” o ladrão; e na outra, o indivíduo devia treinar situações, das mais esdrúxulas, para sair de porta-malas em situações de assalto e sequestro. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

LB: Eu vou fazer dois parênteses. Primeiro, a do dinheiro para satisfazer o ladrão. Mais um pouco você não vai precisar levar dinheiro para satisfazer o assaltante. Basta você ter um cartão, de preferência de crédito, porque o ladrão também vai andar com a maquininha. Então, ele vai te oferecer por quatro vezes sem juros e ainda vai te dá um passe, e aí durante os quatro meses em que você estiver pagando, você não será assaltado. Quer dizer, isso é motivo de piada. Ao invés de dizer: denuncie, você faz esse tipo de orientação? É brincar de segurança pública.

BN: E o do trabalho de sair do porta-malas? Se comparou a atitude à atuação do personagem do seriado MacGyver (final dos anos 80 e começo dos anos 90), profissão-perigo.

LB: Nesse caso, vamos supor um carro, um Corsa, não o sedan, o outro. Se você tiver no porta-malas dele, como é que você vai quebrar aquilo? E se falou, “quebre os faróis”. Então, eu vou quebrar e sair pelo motor para quebrar o farol? E eu faço um desafio para qualquer um. Vamos pegar um elemento, botar a lanterna pendurada, e sair pela Paralela [avenida] ou pelo Iguatemi chacoalhando a mão para fora, e vamos ver quanto tempo a polícia vai demorar para abordar o carro. Quer dizer, isso é uma dica totalmente absurda. E outra coisa, nos carros mais novos, normalmente têm quatro, seis parafusos que você solta por dentro para liberar o conjunto. Como é que você vai conseguir ficar chutando aquilo ali? E tem mais. Se você, cidadão normal, é pego em um assalto, o fator surpresa logo lhe desarma. O cara diz: “vai para o porta-malas”. Você vai para o porta-malas que é um local confinado, quente e escuro. Quanto de nós teria condição de reagir em uma situação como essa? E se for uma mulher?

BN: Voltando a falar de condomínios. Hoje, segundo especialistas, os gastos com segurança têm aumentado em relação aos de manutenção e limpeza. Como é que o senhor vê a qualidade desse investimento?

LB: Olha, se investe mais, porém muitas vezes se investe mal. Porque se contrata muitas vezes empresas de segurança eletrônica, e vem o vendedor que quer fazer o quê? Ele só quer vender. O cara indica sem saber o motivo de se colocar o equipamento. Aí tem condomínios que além de colocar cercas elétricas, põem sensores. Mas na prática, isso vai servir para quê? Vamos dizer o seguinte: se esse sensor disparar, o porteiro, 3h da manhã, sozinho, ele vai fazer o quê? Ele vai sair da guarita? Aí aciona a empresa de monitoramento. O cara da empresa de monitoramento vem, e ele não pode trabalhar armado porque é proibido. Então, ele vai chegar e entrar no condomínio, mas ele vai fazer o quê? É mais um para ser rendido.

BN: E tem o ataque do chamado “homem-aranha”.

LB: Sim. É o cara que escala os prédios. Ele sobe por fora, pula o muro sem o porteiro vê e invade os apartamentos.

BN: Então, qual o caminho para enfrentar o problema da insegurança nos condomínios?

LB: Os equipamentos eletrônicos são ferramentas “show de bola”. Mas desde que você tenha um homem qualificado na outra ponta. Porque isso aí [equipamentos] não trabalha sozinho. Isso aí é máquina burra. Só funciona se a outra peça for competente para usar os recursos. E, normalmente, você vê câmeras sem manutenção, mal posicionadas, fora de foco. Nessa região de orla mesmo, as câmeras têm que serem limpas pelo menos uma vez por mês. Muitas vezes se contrata empresas de maneira errada. Depois que os caras montam o equipamento, seis meses após, eles desaparecem. E não se pede o básico para uma empresa de segurança eletrônica, o Crea de pessoa jurídica e o responsável técnico para emitir a ART [notação de responsabilidade técnica]. Vamos supor uma cerca elétrica montada de forma errada, ela começava a vazar para o muro, uma pessoa encosta em um dia de chuva, toma um choque, pode causar a morte dela.

BN: E as diferenças de lidar com condomínios de classes sociais distintas?

LB: Olha, quanto maior o nível econômico, pior a educação. Então, se o cara encosta o carro, e o portão não está abrindo, ele dispara a buzina, ele xinga o porteiro. Olha, eu já vi cada coisa inacreditável, a ponto de o morador jogar o carro no portão porque o porteiro não abriu na hora que o cara quis.

BN: O condomínio pode ajudar na orientação dos porteiros, no entra e sai de visitantes.

LB: Quando você vai para reunião de condomínio, como eu já fui várias vezes, você aborda essas questões e vê todo mundo torcendo a cara. “Peraê, vai barrar meu pai, vai barrar minha mãe, vai barra o cara que entrega minha pizza, eu não aceito isso”. Reagem mal. Aí, quando acontece um problema. “Ah, não. Agora a gente vai comprar um helicóptero e tal, um míssil antiaéreo, um tanque de guerra”. Aí cai na mão de um espertalhão desses que só quer vender e diz que vai colocar 20 vigilantes, 50 câmeras e tal. E têm outros erros nesses projetos de segurança eletrônica, como câmeras colocadas a favor do sol, aí quando o sol bate, ninguém vê nada; câmeras de má qualidade em que a imagem é ruim; câmera que de dia é uma coisa e de noite é outra, além de outras coisas.

http://imoveis.bahianoticias.com.br/imoveis/especiais/999/luiz-breneken-consultor-de-seguranca-patrimonial

Watch Full Movie Online Streaming Online and Download

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta